A criatiavidade é carioca

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Com avanços de gestão e alcance global, setores da economia criativa, como o artesanato e a indústria musical, se lançam ao futuro

João Estrella de Bettencourt e Michel Alecrim

Não é novidade que criatividade e negócios andam juntos. Nas últimas décadas, contudo, essa

relação vem se tornando cada vez mais estreita, alavancando a chamada economia criativa: um campo que envolve constante inovação, seja pela necessidade de novos métodos de gestão, seja pela evolução tecnológica.

No Brasil, a economia criativa demonstra resiliência e potencial, desenvolvendo-se de maneira consistente mesmo em meio às turbulências. Segundo o Atlas Econômico da Cultura Brasileira, do Ministério da Cultura, ela representa, hoje, 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e atingiu um crescimento acumulado de 70% nos últimos dez anos.

O Rio de Janeiro está no epicentro desse processo. Além da forte tradição da indústria cultural fluminense e do amplo conhecimento instalado no Estado, viu nascer um importante ecossistema de empresas e instituições que movimentam esse mercado.

Considerando as micros e pequenas empresas, o destaque é o trabalho do Sebrae Rio, que atua diretamente no setor há mais de dez anos e tem no CRAB – Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro – um dos ícones da renovação do artesanato fluminense e da revitalização da Praça Tiradentes, importante patrimônio histórico e urbano da cidade do Rio.

Isso explica por que o CRAB vai abrigar, nos dias 26 e 27 de novembro, a primeira edição na América Latina da maior feira da indústria musical no mundo, o MIDEM. O evento é realizado anualmente em Cannes, na França, desde 1967.

A experiência musical do Estrombo

De fato, um dos campos da economia criativa que têm revelado maior

potencial no Rio é o da música. Além da tradição da cidade e do estado nessa atividade artística, vem crescendo a variedade de produtos e serviços nos quais composições musicais podem ser inseridas de forma rentável.

Um dos projetos que se beneficiam desse momento favorável é o Estrombo. Com apoio do Sebrae Rio, a iniciativa atua na formação de profissionais do ramo há mais de oito anos. Músicos, produtores e DJs são capacitados para formalizarem negócios, abrirem canais de distribuição e firmarem contatos comerciais no Brasil e no exterior. A tecnologia digital é o grande filão, devido ao desenvolvimento de aplicativos para celulares e do marketing nas redes sociais. Mas até o know-how para se produzir apresentações ao vivo faz parte da gama de ensinamentos compartilhados.

O produtor e empresário Nilson Raman conta que as feiras têm sido uma ótima oportunidade para os participantes do Estrombo buscarem aprimoramento e estabelecerem redes no mundo da música. Eventos como o Rio Music Market, cuja última edição foi realizada, em setembro, no CRAB, também ajudam aos integrantes a ganharem mais conhecimento sobre o mercado e a afinarem melhor seus modelos de negócio.

“Há dez anos, o mundo passou por uma crise econômica muito grave. Foi depois desse baque que o Estrombo surgiu. De lá para cá, o mercado da música passou por uma profunda reformulação, com novos segmentos surgindo, e houve um amadurecimento muito grande dos profissionais.”

Segundo Raman, o mercado da música do Rio pode passar a viver uma nova realidade a partir do MIDEM. “Acredito que a cada ano as possibilidades de negócios serão aumentadas, e o Rio

tende a ser uma referência para a América Latina no ramo da música”, prevê o empresário.

Oitis 55 e o design criativo

As novas tecnologias digitais favorecem também outros ramos da economia criativa, como o design. Para ajudar os designers a explorarem com sucesso esse novo manancial, o coletivo Oitis 55 agrega, a cada ano, 15 novos empreendedores, que participam de um ciclo de formação de aproximadamente um ano. Apesar da constante renovação de startups participantes, 30 delas continuam ativas no momento em ações coordenadas pelo grupo.

O projeto teve início em 2013, quando o Sebrae foi procurado para prestar consultoria em gestão empresarial. O professor da PUC-Rio e empresário Felipe Rangel conta que a entidade desenvolveu um modelo de treinamento personalizado para o Oitis 55, com orientações específicas de planejamento estratégico e de negócios, marketing digital, comércio eletrônico e vendas. O resultado foi que muitos empreendedores, a maioria deles jovens, passaram a dominar todas as etapas da cadeia de produção e comercialização de um produto e conseguiram obter sucesso com suas marcas.

“A maioria dos profissionais sai da universidade com uma boa bagagem de conhecimento, mas com dificuldade de colocar seus produtos no mercado. A partir do momento em que ganham esse aprimoramento em gestão, fica mais fácil viabilizar suas ideias”, explica Rangel.

O Oitis 55 está com inscrições para uma nova turma de participantes, num claro sinal de que a atividade é promissora.

A vinda do MIDEM faz parte de um planejamento institucional de longo prazo, visando desenvolver e internacionalizar braços da economia criativa fluminense, com foco nas micros e pequenas empresas. É o que explica a coordenadora de Economia Criativa do Sebrae Rio, Heliana Marinho. A executiva está à frente do projeto desde seu início e acompanhou de perto todo o histórico do setor no Estado.

Economia Rio – Como foi a entrada do Sebrae na economia criativa?

Heliana Marinho – Em 2006, criamos a gerência de Economia Criativa. Avaliamos que era preciso entender melhor esse panorama. Para isso, o Sebrae Rio realizou duas missões, para centros que se destacavam internacionalmente. Fomos para o Reino Unido, em Londres e Glasgow, que à época estavam se reinventando a partir dessa nova dinâmica, e para a Espanha, onde Barcelona, principalmente, era uma grande referência.

A PUC-Rio organizou todo o conteúdo a que teríamos acesso, as instituições que iríamos conhecer, para montar o nosso modelo. E as visitas técnicas contaram com a participação de várias entidades, como a Firjan, o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e o próprio Governo do Estado. Ou seja, criou-se uma rede. A partir daí, montamos um fórum de

desenvolvimento da economia criativa, um espaço para trocar experiências e formulações. E cada participante se mobilizou internamente, começou a olhar para dentro e a pensar em como, de acordo com as suas características, a sua missão poderia alimentar essa cadeia.

ER – Qual foi o escopo da economia criativa identificado pelo Sebrae?

HM – Todas as análises nos indicavam que esse segmento, no Rio, envolvia grande quantidade de micros e pequenas empresas, e que a informalidade era uma questão importante. Então, com essas premissas, e junto ao conhecimento advindo das visitas técnicas e das interações institucionais, nós nos alinhamos muito ao trabalho da UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

Eles já tinham uma plataforma e realizavam um monitoramento dessa economia em 150 países, entre eles o Brasil. Esse modelo estabelecia essencialmente 12 atividades, vinculadas aos seguintes eixos gerais: tradição cultural (artesanato, sítios históricos e arqueológicos, museus); mídias (que inclui áreas como audiovisual, games e software); performance (de circo a dança e música); e funcionalidades (design de produto e arquitetura).

ER – Com um universo tão amplo, o Sebrae priorizou alguma atividade?

HM – Fizemos um levantamento específico para entender como essas diversas áreas contribuíam para a economia do Rio e as relações que tinham com as micros e pequenas empresas. Com base nisso, fomos criando ramificações. Desde o início tivemos foco na música, em que eu destacaria o Estrombo. É um projeto, inclusive, que já se internacionalizou.

No audiovisual, temos o programa Gestão para o Futuro do Entretenimento, que pensa o horizonte do setor, e a Escola de Séries, que, em parceria com produtoras do Rio, investe na criação de conteúdo para séries. Já no design de produtos, podemos mencionar o Oitis 55.

Também é forte a nossa atuação na área de produção cultural e artesanato. O artesanato no Rio tem uma singularidade: é muito contemporâneo. Dessa constatação e do objetivo de criar uma identificação, um polo, nasceu o CRAB, que fica na Praça Tiradentes, um lugar de importância histórica.

ER–Ecomosedáarelaçãocomo empreendedor?

HM – Montamos grupos de 20 a 25 empresas, que recebem consultorias coletivas – nas quais atuam de maneira conjunta, criando redes – e individuais, de acordo com as particularidades de cada uma. Para dar um parâmetro, no âmbito do Estrombo já foram atendidos mais de 600 empresas, e nos projetos de audiovisual, 800. Todos os empresários que participam dos programas do Sebrae passam por um diagnóstico empresarial, baseado na Metodologia de Excelência em Gestão (MEG), que é uma análise reconhecida mundialmente. Por meio dela, verificamos os pontos nevrálgicos na gestão daquele negócio.

O passo seguinte é um planejamento estratégico e, por fim, o trabalho é sintetizado em um plano de negócios e um plano de ação. E temos atenção redobrada com os recursos humanos, porque a legislação para diversos setores da economia criativa por vezes não é muito clara ou favorável nesse sentido.

ER – Quais os próximos passos?

HM – Por mais que estejamos voltados para empresas fluminenses, as temáticas da economia criativa são universais. As relações, interações e o impacto internacional dessas atividades são grandes. O Estrombo é um projeto no qual temos experimentado e avançado muito na plataforma de internacionalização.

Para isso, fizemos uma parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O banco aportou recursos para que criássemos uma metodologia voltada ao desenvolvimento do ecossistema de negócios da música. Abriu-se uma grande oportunidade: pudemos levar mais de 130 empreendedores para diversas feiras internacionais que estão no centro dessa indústria.

ER – Dentre essas feiras, quais você destacaria?

HM – Temos dois mercados fundamentais para as características de negócios da música no Rio de Janeiro. Um é o MIDEM, que é a maior feira da indústria da música no mundo. Acontece há mais de 50 anos, em Cannes, na França. É um espaço no qual se discute toda a atualização da cadeia produtiva, os efeitos da tecnologia, os novos modelos de negócios, novos formatos de distribuição e de monetização. Há seis anos levamos empresários para participar.

O outro se chama Womex. Traz um modelo interessante, porque cada edição

é realizada em um lugar diferente, mas sempre em cidades pequenas. Este ano vai ser em Las Palmas, nas Ilhas Canárias. O Womex é especializado em negócios para shows e festivais.

As duas feiras se complementam. Uma é fundamental na atualização tecnológica; a outra dá espaço para as apresentações da cadeia produtiva da música. São dois modelos internacionais que dialogam muito com todo o caminho que nós desenvolvemos aqui. E temos agora um resultado importantíssimo, que é a vinda do MIDEM para o Rio de Janeiro.

ER–OqueoSebraeesperacomo MIDEM?

HM–Éummarco,porqueéa primeira vez que eles saem da Europa. A expectativa vai além do evento: queremos mantê-lo no Rio durante três anos consecutivos, fomentando a criação de uma rede e de um ambiente de modelagem profissional de negócios e impulsionando a internacionalização dos empreendimentos fluminenses.

Há, nesse sentido, um outro fator: a música, assim como o artesanato, que está na origem do CRAB, dialoga com todos os segmentos da economia criativa. Com o audiovisual, com as festas populares. Então, com o MIDEM aqui, criamos um novo portal, para que todos esses segmentos possam trocar, interagir. Um exemplo é a própria logística e a ocupação urbana que a feira implica. Além das conferências, ela tem, por exemplo, uma plataforma de realizações de shows, que acontecerão na porta do CRAB, na Praça Tiradentes.

ER – Ou seja, a realização do MIDEM se insere em uma lógica mais ampla do Sebrae Rio em relação à economia criativa.

HM – Com certeza. É um impacto múltiplo, que se insere na nossa ideia de criar redes, de desenvolver um ecossistema, de conectar diferentes áreas de atuação. Aumentando a formalização e a eficiência de gestão das empresas e, ao mesmo tempo, aprofundando a complementaridade entre as instituições que operam no setor.

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