Lideranças regionais feitas em casa

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Empreendedores, sociedade civil e setor público trabalham em uma agenda de desenvolvimento

Alexandre Gaspari

O que é ser líder? A pergunta parece simples, mas costuma gerar respostas complexas e inconclusivas. Muito se fala das características pessoais como um ponto de partida para alguém assumir a liderança de projetos, processos e movimentos. Entretanto, se o esboço de um líder de verdade pode ser observado a partir de qualidades inatas, nem todos assumem esse papel. Seja por falta de oportunidades, seja por não identificarem em si próprios essas qualificações.

Se o potencial de liderança já existe nas pessoas, é preciso, portanto, identificá-lo e desenvolvê-lo para que ele se torne efetivo e capaz de promover mudanças. O Sebrae Rio assumiu essa tarefa e vem estruturando programas que reúnem agentes dos setores público e privado para que assumam o papel de liderar projetos de desenvolvimento local e regional. Além de condensar ideias para a solução de problemas comuns, esses programas criam o ambiente para debates objetivos sobre boas práticas e resultados.

Um dos mais destacados trabalhos nesse sentido está sendo desenvolvido na região do Médio Paraíba. É o Programa LIDER – Liderança para o Desenvolvimento Regional, iniciado no fim de 2017 e que está prestes a ser replicado no Sul Fluminense.

Sociedade como agente de mudança

O LIDER é guiado para unir lideranças de determinada região, a fim de discutir e planejar essa região a longo prazo. Qualificando esses líderes, a expectativa é que esse grupo atue na formulação e na implantação de um programa de desenvolvimento regional. Além de serem sustentáveis a longo prazo, essas propostas devem dar ênfase à criação de um ambiente de negócios favorável a micros e pequenas empresas (MPE).

A partir de outubro de 2017 e até junho deste ano, o trabalho do Sebrae Rio foi identificar na região do Médio Paraíba – que abrange 12 municípios – quais seriam as pessoas com perfil de liderança que poderiam assumir essa tarefa. No momento, o programa está na fase de organização de seu plano de ação, que deve culminar em um grande fórum para apresentá-lo à sociedade, cuja data ainda não foi definida.

Se inicialmente os prefeitos eram “candidatos naturais” a exercerem esse papel, por terem sido eleitos pela maioria dos eleitores de suas cidades, era preciso atrair mais atores, tanto da sociedade civil quanto da iniciativa privada.

“Ao longo do tempo, o Sebrae desenvolveu várias experiências de promoção do desenvolvimento regional. E o que observamos é que essa ação é protagonizada pela própria sociedade, pelos atores locais, sejam eles do setor público, da sociedade civil ou da iniciativa privada. As entidades apenas fornecem as ferramentas. Nossa metodologia não ensina liderança às pessoas. Elas já são líderes. Nosso desafio era delimitar esse grupo”, conta Ana Lucia Araujo Lima, coordenadora do Escritório Regional do Sebrae no Médio Paraíba.

A partir do momento em que o Sebrae Rio identificava alguém com o perfil do projeto e essa pessoa aceitava integrá-lo, ela indicava outras com perfil similar, que agregassem valor ao programa. Se os nomes recebessem duas ou mais indicações, entravam no radar da instituição, para que fossem convidados a participar.

“A iniciativa visa três públicos: o setor público, por meio das prefeituras; os empresários; e a sociedade civil, através de associações comerciais, sindicatos, instituições de ensino e universidades. Nossa função era criar um grupo coeso de pessoas que já fossem líderes isoladamente, mas que precisavam se conhecer e perceberem que juntas poderiam fazer muito mais. Era importante ter uma visão do todo, das 12 cidades, a fim de formar uma grande rede regional”, detalha a coordenadora.

Com o núcleo inicial de 44 líderes formado, foram estabelecidos setores prioritários. O grupo listou quatro eixos para planejamento de ações: tecnologia, educação, turismo e mobilidade. Cada um deles criou uma agenda de trabalho. Contudo, essas linhas de atuação não são permanentes ou fixas. Caso se perceba que um dos eixos atingiu seus objetivos, o grupo pode decidir mudar o foco e atacar outra área que precise de mais atenção.

Com a metodologia, a infraestrutura e as ferramentas fornecidas pelo Sebrae Rio, o LIDER desenvolveu um mapeamento do que se pretende para a região do Médio Paraíba para 2030. De modo a exercer a governança dessas medidas, o grupo elegeu coordenadores para as linhas de ação e agregou mais pessoas, em oficinas específicas, de modo a discutir propostas e soluções. Assim, cada eixo recebeu contribuições de cerca de 30 a 35 especialistas nas áreas.

“É importante frisar que as discussões têm o viés na micro e pequena empresa. Quando pensamos em tecnologia, por exemplo, devemos refletir em como tornar as MPE mais tecnológicas, ou que ferramentas que hoje não existem precisamos trazer para a região. O mesmo vale para os outros três eixos”, diz Ana Lucia.

Uma característica fundamental do LIDER é que todas as decisões são tomadas por quem participa do grupo. Ana Lucia ressalta que o formato é muito aberto e participativo. Ao Sebrae Rio cabe apenas a mediação. “Se demos a partida, hoje estamos mais na posição de apoiadores. Os líderes já estão assumindo a coordenação e a mediação dos encontros, para que sejam os protagonistas do processo”, afirma.

Quanto ao futuro, a coordenadora aposta em outros desdobramentos a partir desse impulso. Além da ampliação do horizonte de planejamento, Ana Lucia acredita que outros eixos temáticos passarão a integrar a agenda de ação.

“Nossa expectativa é que o projeto perdure por muito tempo. Ou seja, quando o LIDER conseguir executar o plano 2030, que já estabeleça metas para 2040, 2050. Resolvendo os problemas desses primeiros quatro eixos, esperamos que outras linhas sejam abordadas. Uma frase criada em um dos encontros diz que ‘o LIDER tem a função de fazer fazer’. Ou seja, agir para que as instituições trabalhem mais e melhor, para que as lideranças públicas e privadas consigam enxergar os temas como prioridades.”

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