O Ecossistema do Empreendedor

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Uma entrevista com Cezar Vasquez, diretor-superintendente do Sebrae/RJ

Não há soluções mágicas. É esse recado que traz o diretor-superintendente do Sebrae/RJ, Cezar Vasquez. Em uma época na qual é comum ouvirmos opiniões definitivas e, por vezes, planos verticais e infalíveis para a economia, a mensagem de César é tudo, menos banal. Representa uma inflexão da instituição e uma visão acerca não somente do seu papel no apoio às pequenas e médias empresas, mas também do Estado, como indutor da retomada econômica. “É preciso aproveitar as estruturas e dinâmicas que já existem em vez de se buscar, a todo momento, apenas criar novas”, salienta.

Para ele, isso significa, em primeiro lugar, observar e entender o empreendedor e suas diferentes necessidades: “Não adianta imaginar que o Sebrae, ou mesmo o Governo, vai decidir, por decreto, como a economia vai se movimentar, que setores ou regiões vão crescer. Temos um bom exemplo, que são os Arranjos Produtivos Locais (APLs), visando à consolidação de cadeias regionais de produção. O que dá certo, no longo prazo, é o que corresponde às características e vocações daquela área, daquela estrutura econômica. Se for uma decisão de cima para baixo, não acontece. Fica bonito no papel, mas não acontece na realidade.”

Desse diagnóstico, vem nascendo um reposicionamento da instituição, que, mais mobilizada do que nunca, como destaca o superintendente, busca novas formas de atuação. É o que veremos nas páginas a seguir.

 

Equilíbrio entre atender e articular: Sebraetec como exemplo

“O Sebrae exerce um duplo papel. De um lado, como atendimento e, de outro, como articulador de políticas públicas e do próprio ecossistema das micros e pequenas empresas. Uma questão a ser posta na mesa então é: qual o equilíbrio mais eficaz entre esses dois polos? Não podemos nos aferrar a uma visão preconcebida. Temos que nos voltar para o que gera resultados mais amplos e, o que é imprescindível, mais consistentes”, enfatiza Cezar.

Na prática, ele esclarece, isso implica se repensar como agência: “O Sebrae se percebe e é percebido muito como um bureau de serviços. Por intermédio deles, oferece apoio direto – e essencial – para quem precisa gerir o seu negócio em meio às inúmeras dificuldades que temos no Brasil. No entanto, exclusivamente por essa lógica, nossa capacidade nunca será suficiente para abarcar essas mesmas necessidades. É um paradoxo.”

Para mostrar que é possível enfrentar esse desafio, o superintendente cita um dos programas de maior impacto da instituição, o Sebraetec, que leva às micros e pequenas empresas assessoria customizada em sete áreas de inovação − palavra obrigatória no vocabulário de quem busca se manter competitivo. São elas: Design; Produtividade; Propriedade Intelectual; Qualidade; Inovação; Sustentabilidade; Serviços Digitais.

Ora, mas não seria contraditório afirmar que é preciso ir além da operação direta e dar como exemplo, justamente, a oferta de uma enorme carteira de serviços?

É aí que entra a mudança estratégica exposta por Cezar: “A diferença é que esse mercado já existe! O Sebrae não precisa criá-lo, muito menos ocupá-lo. Do que se trata então? De entendê-lo – o que estamos muito bem posicionados para fazer, pela expertise e história que carregamos − e, a partir daí, fazer pontes, articular. Conectar os pequenos negócios, que precisam de inovação, aos prestadores de serviços de tecnologia, que precisam de clientes. Ou seja, a entidade usa seu peso e seu conhecimento não como operadora e, sim, para alimentar uma rede que tem tudo para, depois, crescer independentemente dela.”

 

Mais acesso, mais agilidade, mais conexões

O Sebraetec é um case, mas essa filosofia, hoje, perpassa toda a instituição, como evidencia, entre outros fatores, a reformulação geral que está sendo implementada na estrutura de atendimento, tendo dois pilares centrais:

  1. Transformar – inclusive fisicamente – as agências espalhadas pelo Estado em centros que irradiem a economia real, nos quais empreendedores com interesses e posições complementares possam criar e atuar em rede, em vez de se limitarem a buscar assessoria técnica;
  1. Ampliar e agilizar o acesso aos serviços, mas utilizando, para tanto, novas e mais eficientes plataformas digitais e, não menos importante, parcerias.

“Nossa missão é garantir que as pequenas e médias empresas tenham as ferramentas das quais necessitam, no tempo em que necessitam, com as redes das quais necessitam para serem sustentáveis, em um mercado sólido, articulado. É isso o que importa, e não se é o Sebrae ou não que está na ponta”, afirma Cezar.

 

Políticas públicas integradas

Ao mesmo tempo, o superintendente do Sebrae/RJ cobra o papel dos agentes públicos nesse processo. Para ele, as pequenas e médias empresas são vistas como penduricalhos: “Quantas vezes você tem uma abordagem profunda, integrada à política econômica? Basicamente, nunca. Falam-se, no máximo, generalidades, de que geram emprego e renda. Efetivamente, geram – e não é pouco. Por isso mesmo não podem ser alvo de medidas pontuais, compartimentadas. O planejamento para esse setor não é acessório, não é um adendo. É investir na dinamização, diversificação e modernização da economia fluminense e brasileira, como um todo.”

Esse panorama, ele faz questão de ressaltar, não decorre somente de uma avaliação teórica; antes, se ancora em experiências comprovadas pela própria instituição, através de iniciativas como o Scale Up Rio (ver matérias a seguir), voltado para criar um ambiente positivo de negócios para empresas que crescem fortemente, mesmo com a crise; o programa Líder, que conecta empresários, executivos, gestores municipais e representantes da sociedade civil, visando à definição de agendas econômicas regionais; ou o Periferia Faz Negócio, que, com o lema “transformando sonhos em negócios”, busca gerar ganho de escala para os empreendedores na base da pirâmide.

“Todos esses programas têm em comum esse objetivo, de integrar as micros e pequenas empresas – com seus diferentes nichos e características – entre si e com os atores de suas respectivas cadeias. Os resultados mostram que é um caminho a ser trilhado decisivamente nos próximos anos. Ampliando parcerias, ampliando redes, para obter resultados estruturais”, sublinha.

 

Ao alcance da mão

O Poder Público, avalia Cezar, tem totais condições de, sem medidas heterogêneas, sem pirotecnias, alimentar esses processo, trazendo as pequenas e médias empresas para o foco.

“Vamos fazer um exercício rápido para mostrar de onde vem essa conclusão. Um tema: padronização estadual para a abertura de negócios. Isso envolve alinhar diversas posturas municipais, exigências, certificações. Pois bem, hoje isso já foi feito em todo o Estado, o que é algo único no Brasil. É uma vantagem competitiva, fruto dos avanços entre os próprios municípios. Só que é informal. Por que, então, não aproveitar que isso já é uma realidade e criar uma espécie de selo válido no território fluminense? Praticamente não há custos para se fazer isso. Outro ponto: compras governamentais. Por que não integrá-las às cadeias já existentes de pequenas e médias empresas, eficientes, ágeis, que trabalham em rede, de acordo com as melhores práticas? Imaginem a dinâmica econômica que isso não favoreceria, os efeitos multiplicadores nessa cadeia?”

Como podemos ver, aquele recado do início do texto embute um desdobramento: não há soluções mágicas, mas há soluções. O segredo é buscar a sociedade e o empreendedor.

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