Orgulho de consumir o que é do Rio

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Reporter: Alexandre Gaspari

Se a economia brasileira começa, mesmo que timidamente, a dar sinais de recuperação, o Rio de Janeiro ainda está devagar. O PIB do Estado registrou sua terceira queda consecutiva em 2017, e houve a perda de quase 100 mil postos de trabalho. O que fazer para mudar esse quadro?

Como crises trazem oportunidades, um grupo de empresários resolveu se mexer. Nascia, assim, o movimento “Sou do Rio”. Sem qualquer liderança institucional estabelecida, o movimento parte de uma premissa simples: consumir produtos e serviços feitos no Rio gera emprego, renda e arrecadação aqui. Assim, promove–se uma política ganha-ganha, para a indústria, para fornecedores, para consumidores e para os cofres do governo do Estado.

Vice-presidente da Firjan e empresário do setor alimentício, Sérgio Duarte é o coordenador do “Sou do Rio”. Nesta entrevista, o executivo dá um panorama do movimento, suas ações e expectativas. E faz uma verdadeira conclamação a todo cidadão fluminense: “Além do preço e da qualidade, queremos que cada consumidor inclua um ingrediente a mais em sua escolha por produtos: o fato de ele ser fabricado em nosso Estado.”

ECONOMIA RIO: O que motivou a criação do “Sou do Rio”?

SÉRGIO: Com a crise econômica, vários empresários – eu, representando a Firjan; o Fabio Queiroz, que preside a Asserj (Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro); o Pedro Delamare, representando o SindRio (Sindicato de Bares e Restaurantes); o Carlos Marinho, da Aderj (Associação de Atacadistas e Distribuidores), o Mario Chady, da rede Spoleto, entre outros –, começamos a nos encontrar regularmente e a discutir alternativas para o Rio. Conversávamos muito sobre variados assuntos, como os incentivos fiscais, que, na época, estavam sob intenso ataque, recebendo críticas ruins. Pensamos em soluções, como procurar órgãos de imprensa e deputados para esclarecer essa e outras políticas públicas. Mas também propusemos que as empresas que integram essas e outras entidades precisavam trabalhar mais em conjunto, com a indústria do Estado fornecendo mais para supermercados do Rio, com a necessidade de bares e restaurantes do Estado estarem mais atentos à indústria fluminense. Afinal, cada emprego gerado na indústria daqui é um consumidor dos supermercados, dos bares e dos restaurantes do Estado. Então, começamos a aproximar as indústrias fluminenses com fornecedores. Promovemos rodadas de negócio na Firjan, que foram um sucesso. Assim, o processo engrenou e começou a dar resultado. Percebemos que isso era um fomentador de negócios, e que poderíamos ajudar a desenvolver melhor as empresas do Rio, para ajudar um pouco o Estado a sair da crise.

ECONOMIA RIO: E como isso chegou ao movimento?

SÉRGIO: Com o tempo, muitas pessoas que tiveram conhecimento desse movimento empresarial, livre, sem donos, começaram a perguntar o que poderiam fazer, como cidadãos, para participar dessa ação. Assim, surgiu a ideia de montar o “Sou do Rio”. Ele veio como evolução do nosso trabalho, levando esses princípios para a sociedade. “Como eu, como cidadão, posso fazer algo pelo meu Estado?” Então, sugerimos que, quando você vai a um supermercado, vai adquirir um produto, que opte por consumir os fabricados no Estado.

ECONOMIA RIO: Isso não pode soar como uma possível medida de protecionismo?

SÉRGIO: Deixamos claro que não se trata disso. Não queremos que em momento algum seja criada alguma restrição a qualquer empresa de outro Estado ou mesmo de outro país. O que queremos é que o cidadão fluminense tenha o sentido de pertencimento a este Estado. Se é o lugar onde eu vivo, onde eu moro, como posso ajudá-lo? Com seu direito soberano de escolha, você, ao adquirir um produto, observa sua qualidade e seu preço. O que nosso movimento prega é que, além dessas características, você inclua um ingrediente a mais na sua escolha: veja onde esse produto é fabricado. Quando você vê que esse produto é fabricado no Rio e dá preferência a ele, você está movimentando a economia do Estado. Essa indústria, se tiver um incremento em suas vendas, irá precisar contratar mais pessoas. Com isso, atacamos dois problemas que são os pilares da crise econômica do Rio de Janeiro: o desemprego, que permanece muito alto, mesmo com o início da recuperação do país, e a arrecadação fiscal, pois esse emprego vai gerar um salário, que será gasto em consumo de produtos, que vai gerar arrecadação para o Estado. Ou seja, o movimento é uma forma de fazer o cidadão fluminense fazer sua parte para ajudar a recuperação do Rio.

ECONOMIA RIO: Nesse período, que ações já foram realizadas para fortalecer a marca “Sou do Rio”?

SÉRGIO: É importante ressaltar que somos um movimento sem dono. Não é uma ação da Firjan, do SindRio. É um movimento da sociedade. Está acima das instituições. Então, queremos que ele cresça de uma maneira espontânea. Com a conscientização de cada um, esperamos que haja a adesão não somente das pessoas, mas de outras entidades, como a Associação Comercial do Rio (ACRJ), que vem nos apoiando. O movimento das empresas se fortalece a cada dia. Em parceria com a Asserj, participamos de uma importante feira do setor de supermercados, a Expo Food, a segunda maior do setor na América Latina, que foi realizada no Riocentro em março. Trouxemos 20 pequenas empresas que nunca haviam participado desse evento. Foi uma oportunidade dessas indústrias mostrarem seus produtos e se aproximarem dos supermercados. Em breve, vamos instalar em supermercados uma gôndola com a marca “Sou do Rio” para a exposição de produtos fabricados no Estado, dando destaque a eles. Nosso slogan é: “Quem compra produto do Rio gera emprego e renda no Rio”. Também estamos negociando com o SindRio para a montagem de um cardápio “Sou do Rio”, com ingredientes produzidos aqui. Parece pouco, mas vamos lembrar que não contamos com dinheiro nem com lideranças. E é isso que queremos: que seja um movimento livre, que seja encampado pela sociedade, empresários, consumidores, todos.

ECONOMIA RIO: Já está definido quais e quantos supermercados vão abrigar essas gôndolas?

SÉRGIO: Ainda não. Começamos a conversar com a Asserj no início do ano, e eles adoraram a ideia. Como estavam se preparando para a Expo Food, aguardamos a realização da feira para retomar as negociações e estabelecer os critérios. Nosso objetivo, claro, é obter a adesão do maior número possível de supermercados, mas ainda não podemos falar em números.

ECONOMIA RIO: Como isso pode ajudar o desenvolvimento regional?

SÉRGIO: O interior do Rio de Janeiro tem um grande problema. Não temos uma agricultura forte, não temos um setor de turismo forte. Então, como o interior do Estado sobrevive? É triste ver que muitas vezes essa ausência de oportunidades leve as pessoas a migrarem para a Região Metropolitana. Mas há uma forma de mudar isso. Independentemente de eu ser um empresário e ser da Firjan, vejo somente uma forma de mudar esse quadro: atraindo indústrias para o interior. Não temos outra coisa a fazer para promover nossa economia que não atraindo indústrias. Um exemplo claro disso é o Sul Fluminense. Uma política de incentivo certa nos deu o segundo maior polo automobilístico do país. Houve incentivo também na região de Três Rios, e olhe no que aquela região se transformou. A atração de indústrias cria uma dinâmica diferente nessas cidades. Se eu chegar hoje em uma cidade do interior fluminense e implantar um supermercado moderno, gerando 50 empregos, corro o risco de destruir mais de 50 empregos já estabelecidos, já que meu supermercado irá provocar o fechamento de diversos mercados pequenos. Ou seja, não gerei renda nova, pelo contrário. Com uma indústria é diferente: você traz novos fornecedores, novos empregos. Cria-se um círculo virtuoso, trazendo novas atividades. Uma indústria contrata serviços, contrata fornecedores, contrata mão de obra. É uma dinâmica diferente.

ECONOMIA RIO: E qual a participação do “Sou do Rio” para mudar esse quadro?

SÉRGIO: Queremos valorizar as empresas do Estado. Temos marcas que são ícones. A Piraquê, a Massas Nápoles, a Chinezinho, a Granfino, a Limpano… temos várias indústrias de ponta, marcas que são conhecidas pelo consumidor, e às vezes ele nem percebe, não toma conhecimento de que essas marcas são importantes e que são do Rio. Então, se ele vai à gôndola de um supermercado e opta por uma marca que é de outro Estado ou de outro país, ele tem de entender o peso dessa decisão. O peso de estar gerando emprego e renda em outro lugar do Brasil ou do mundo.

ECONOMIA RIO: E como fazer o consumidor perceber que está adquirindo produtos fabricados no Rio, já que as ações do movimento não dispõem de recursos para promoção?

SÉRGIO: É o nosso grande desafio: fazer com que o consumidor perceba a origem do que está consumindo. Já que não temos aportes de recursos, precisamos que seja um movimento espontâneo. Para isso, tenho falado com vários veículos de imprensa, de modo a divulgar o “Sou do Rio”, disseminar a ideia e construir uma base de apoio. Criar as gôndolas nos supermercados com a marca, como já tratamos com a Asserj, já irá chamar a atenção do consumidor para esses produtos. No nosso site (www.movimentosoudorio.com.br), disponibilizamos gratuitamente folder, totem e banner com a marca. Nosso próximo passo é começar a sensibilizar as empresas e as entidades da necessidade de investir financeiramente nessa promoção. Vamos trabalhar para que empresas e entidades percebam que isso tem um valor. As indústrias vão perceber a importância desse movimento. Os supermercados já estão percebendo, pois produtos produzidos no Rio geram renda e consumo no Estado.

ECONOMIA RIO: Que setores são considerados prioritários para o fortalecimento do movimento?

SÉRGIO: Além do segmento alimentício, temos um setor de cosméticos muito forte. O mesmo vale para o setor de produtos de limpeza. Mas não temos limites. É claro que o alimento tem mais visibilidade, por se tratar de um produto de consumo imediato, de gênero de primeira necessidade. Mas qualquer setor é bem-vindo. Queremos conscientizar o cidadão para que olhe para tudo o que faz no seu dia a dia e priorize o que é feito no Rio. Mesmo se falarmos sobre o setor de serviços, por exemplo. Muitas vezes você contrata um serviço e a empresa está sediada em outro Estado. O que queremos é que se dê preferência às empresas fluminenses. É emprego e renda sendo gerados aqui. Isso é algo comum em todo o mundo, estimular o consumo de produtos e serviços locais para geração de emprego e renda localmente. A Europa faz isso muito bem, a França, particularmente, é expert nessa promoção. É claro que, no caso francês, eles estão um passo à frente, pois conseguiram transformar em desejo de consumo mundial produtos e serviços de determinadas regiões daquele país.

ECONOMIA RIO: É possível fazer algo semelhante aqui?

SÉRGIO: A marca do Rio de Janeiro é maravilhosa. Ela tem um apelo muito sentimental em todo o país, um apelo de cultura, de modernidade. Então, podemos começar a construir isso lentamente. Por isso, inclusive, é muito importante o movimento não ter dono. Ou seja, se a sociedade entender que é um movimento importante, ela vai aderir a ele. Não queremos ficar brigando por algo que não seja de todos. Voltando à questão do incentivo fiscal, que foi tão criticado, precisamos frisar que o incentivo bem direcionado e bem ordenado é um fomentador de crescimento. O bom incentivo, feito de forma correta, é muito bom para a economia do Estado. No Rio, os incentivos fiscais geraram cerca de 100 mil empregos. São 100 mil pessoas comprando em supermercados do Estado. E esses empregos, se não tivessem vindo para cá, iriam para outros lugares, criando consumo em outros Estados.

ECONOMIA RIO: É inegável o peso da marca “Rio” no Brasil, e também no mundo. Sendo assim, por que a dificuldade de fixá-la como uma marca poderosa?

SÉRGIO: Como carioca, fico muito à vontade em falar sobre isso. O carioca, o cidadão fluminense, é muito ligado aos temas nacionais. Acredito ser uma herança do fato de termos sido a capital federal. Assim, olhamos muito para os temas nacionais e esquecemos de olhar para o nosso umbigo. É verdade que a marca “Rio” é mal trabalhada. Esse trabalho deveria ser uma política de governo, mas não ocorre. Essa discussão, aliás, permeou o início do nosso movimento. Por isso batemos na tecla de ser um movimento aberto, de resgate desse orgulho de ser do Rio de Janeiro. Eu posso ajudar meu Estado com um simples movimento de escolha, não preciso fazer nada demais, apenas dar preferência à produção fluminense. Com o “Sou do Rio” podemos mudar por completo a economia do Estado. É um discurso muito fácil de fazer, de defender.

ECONOMIA RIO: Em relação à participação em grandes eventos, há alguma agenda prevista para os próximos meses?

SÉRGIO: Vamos tentar estar com um estande “Sou do Rio” em toda e qualquer feira de negócios que ocorra no Estado. Um exemplo para este ano é a Rio Oil and Gas, que vai acontecer de 24 a 27 de setembro, também no Riocentro. Vamos procurar todos os eventos disponíveis. Mas, vale lembrar novamente, não temos recursos. Precisamos tentar parcerias para garantir nossa participação.

ECONOMIA RIO: Qual é o Rio ideal para o “Sou do Rio”?

SÉRGIO: O Rio de Janeiro tem características muito interessantes para o setor industrial. Estamos no meio da região que concentra 65% do PIB do Brasil, que é o Sudeste. Temos portos competitivos, mão de obra qualificada, características muito importantes para atrair indústrias para cá. Meu desejo é ter um Estado que não importe tanta mercadoria, que não dependa tanto do petróleo, um recurso finito e que passa por constantes flutuações. Proporcionalmente ao seu consumo, o Rio é o Estado da Federação que mais importa produtos e serviços. Existe uma estimativa de que, anualmente, o Rio de Janeiro transfere entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões para outros Estados, por conta dessa importação, por meio do ICMS. Ou seja, é uma riqueza gerada por nós, fluminenses, indo para outros lugares. Por isso, gostaria de ver uma base industrial mais diversificada, atraindo mais empresas para cá, por causa do nosso consumo,  e sem depender tanto dos incentivos fiscais. É a criação de uma cultura industrial. O interior fluminense tem uma saída, que passa pela atração de indústrias.

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